
hiperverso_01
Quem ainda ousa discordar
da mor-relevância do fogão
na cozinha? Pois se o exaustor
é cria sua, e o microondas
é cópia sua, e a torradeira é parte
dele... e assim e sempre.
Tremendo sob coberta empoeirada,
a batedeira e o liquidificador
ficam cada qual no seu canto do armário,
um troféu, e outro de dia das mães. E, vida habitualmente monástica,
se doem escaras.
Depois de baldada contenda,
a geladeira finalmente calou-se e hiberna,
em paz, sua função a de ser um armário afrescalhado.
Pois o fogão dorme a maior parte do dia,
sua pele nua, seu corpo esguio e agudo
s ângulos. Não se reúne às quartas feiras
para discutir a companhia elétrica.
De seu altar, óculos escuros, exige
oferendas, suas pílulas prateadas,
peças exclusivas na casa, bagulho de patrão.
De seu torpor ainda vigílio, nas horas acasuais,
diz seu canto grave a voz morna
cintilando cada azulejo.
Venha conosco compor louvação libertina!
Do sono dos dias, a tonteira das voltas,
a cabeça tão cheia de palavras e imagens de palavras,
do corpo de terra a pele tão cheia de asfalto e pedestre,
e essa vontade de árvore. A sobriedade é impraticável,
quem precisa de tanta vida, eu desenhei em giz
cera sobre meus óculos. Procuro travesseiro,
porque a noite já efloresce das bocas-de-lobo,
a casa vazia, a mãe de férias, seu retrado beijando
a parede na estante de tv. Quase esquecer culpa flutuar
em direção ao timbre aquiescedor do fogão e lá deitar
meu caos e separar fio a fio e organizar a fronha
e repousar em seu ventre.
Voltar.
A antes da maçã da cobra, o umbigo é uma invenção inútil.
Por ter corredor tão longo, agradeçam
quem não queria o fedor e provável estouro
e então impostergável telefonema ou mesmo
carta ou mensagem via aparelho de fax
à seguradora e tanto papel pra tão pouca árvore.
Pois em ato gentil àqueles sobre quem cairia a
lona do fracasso e aos jornais populares locais,
meus pés se cansaram da ronda porque quem sabe
faz e não pede sua atenção, cavalheiros.
Linha direita. Linha esquerda.
Imagina o trabalho do corpo devolvido adeus feito
livro com orelhas e digitais de gordura.
Eu não vou mais dormir.
- Escrito em 24/7/7, possível apenas com 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
zeropontoum